A&P Arquitetura | Ficha técnica – Concurso Prêmio Caixa/IAB 2006 – Requalificação de ruínas e adaptação para implantação do Conjunto Residencial Pilar 2

Ficha técnica – Concurso Prêmio Caixa/IAB 2006 – Requalificação de ruínas e adaptação para implantação do Conjunto Residencial Pilar 2

local Caminho Novo do Taboão, nº 23,25,27 e 29. Centro Histórico de Salvador/BA

projeto 2006

autoria Esterzilda Bernstein, Vânia Hemb, Alexandre Prisco e Nivaldo Andrade

colaboradores Elisa Furian Dias, Vinícius Gonçalves dos Santos, Danilo Silva Farias

área 2.619,94m²

 

 

As quatro edificações estão situadas na ladeira do Caminho Novo do Taboão e encravadas na encosta. Destas quatro, apenas três se encontram ocupadas, ainda que de forma precária. Da quarta casa restam apenas os muros externos. O conjunto mantém as fachadas, a caixa mural externa, com modificações e acréscimos, e as paredes divisórias entre as casas. A proposta parte de um princípio de leitura da ambiência da rua (e do lugar) e da identificação do conjunto edificado. Nesse sentido, foi mantida a caixa mural externa, as fachadas e suas envasaduras como se mostram atualmente, exceto pela recuperação de alguns vãos, e as paredes internas que configuram os limites de cada uma das casas. Preserva-se, portanto, a identificação, no exterior e no interior do conjunto, das quatro unidades que o compõem e que testemunham a divisão fundiária original, geradora da tipologia predominante na área. PROPOSTA A preservação das paredes internas determinou, no plano horizontal, a divisão das novas unidades habitacionais, desenvolvidas em blocos paralelos, intercalados por poços de iluminação e ventilação natural, o que permite obter, na maioria dos novos apartamentos, uma ventilação cruzada – fundamental em clima quente e úmido, especialmente na área em que está localizado o conjunto. As paredes internas preservadas mantêm-se contínuas mesmo nos espaços de ventilação, sendo apenas rasgadas para a passagem das passarelas de circulação, executadas em estrutura metálica leve e permeável à luminosidade e à aeração. Tais rasgos permitem ainda uma comunicação visual entre os pátios internos, favorecendo a iluminação natural. Verticalmente, a proposta rompe as lajes de concreto ainda existentes (que não constituem o entrepiso original e mostram necessidade de recuperação) e se estrutura em oito pavimentos com pé direito condizente com os atuais padrões de habitabilidade. Com isso obtém-se um número maior de unidades, atendendo melhor à viabilidade econômica do empreendimento. As condições climáticas também direcionaram o partido adotado quanto à criação de um espaço vertical de ventilação e amenização do calor: os muros das antigas fachadas formam uma espécie de segunda pele protetora, um paramento cujos grandes trechos fechados procuram proteger os apartamentos da excessiva exposição ao sol poente, e as envasaduras – sem esquadrias – ampliam o deslocamento do ar interno pela possibilidade de exaustão. Nos pavimentos superiores, nesse espaço vazio entre fachadas preservadas e novos paramentos, as passarelas de acesso compensam as diferenças de nível entre o novo e o antigo e se desenvolvem junto às antigas aberturas, que recebem acabamento em chapas de aço e elementos de proteção também em aço, nos casos em que se comportem como janelas rasgadas. Nos pavimentos inferiores, estes espaços/passarelas pertencem às unidades, como uma espécie de varanda, ou simplesmente desaparecem quando as diferenças de altura entre as novas lajes e as aberturas existentes não permitem condições de uso. Considerando as tipologias de uso existentes na área, o pavimento térreo permanece com utilização comercial na parte fronteira, com habitações na parte posterior. Nesse nível térreo, assim como na cobertura, as diferentes cotas de implantação das casas existentes e as diferentes alturas que elas atingem fizeram surgir pavimentos intermediários. Reserva-se a edificação implantada no nível mais alto do Caminho Novo do Taboão para acesso ao conjunto das habitações, cujo sistema de circulação vertical se faz prioritariamente por escadas. No entanto, como a altura total atinge sete pavimentos a partir do nível de acesso, o projeto prevê, como alternativa, a possibilidade de uso de elevador. O conjunto conta com 61 novos apartamentos, o que pressupõe um número de moradores relativamente grande, em lugar que na sua origem não dispõe de pátios e áreas abertas livres. Nesse sentido, a proposta define um sistema de espaços comuns, procurando atender, dentro das possibilidades, a um uso coletivo. Fazem parte desse sistema o grande espaço (salão) de entrada, as pequenas áreas dispostas ao lado da circulação vertical em cada pavimento e a cobertura, onde foram utilizadas as diferentes alturas dos casarões para criar uma área de uso comum, descoberta. Os pátios internos da segunda e terceira linhas de áreas de ventilação, ao nível do chão e no trecho que avança na encosta, também se integram a esse uso, embora com caráter diverso. HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO O conjunto de casas destinado ao projeto situa-se no centro histórico de Salvador, no Pilar/Taboão, trecho de ocupação das mais antigas na cidade, entre a encosta do altiplano, lugar fundacional da parte administrativa, e o mar, na estreita faixa de terra que nos primeiros séculos abrigava o porto da cidade. A paisagem deste trecho constitui um patrimônio natural/cultural/paisagístico de Salvador. Historicamente vinculada ao Porto, a área do Pilar/Taboão teve sua ocupação inicial concentrada em uma única rua paralela à encosta, conectada aos caminhos de acesso à cidade alta. Foi lugar de trapiches, entrepostos, armazéns, lojas e bazares; lugar de portuários, mas principalmente de comerciantes, prestadores de serviços, vendedores ambulantes e escravos “de ganho”. Até o fim do século XIX esses mercados da cidade baixa foram os verdadeiros centros comerciais. Mais tarde vieram os aterros, a modernização do porto e um traçado de ruas ortogonais. Ao início do século XX, estas modificações ampliaram territórios e diversificaram a ocupação com novas tipologias. Perdendo a proximidade do porto e suas funções correlatas, a área antiga perde também o interesse econômico, sofrendo um processo de deterioração física e social. As conseqüências desse processo refletem-se em toda a área central. A caracterização dos primeiros habitantes baianos indica uma população que ocupava a área para comércio e moradia. As famílias mostravam alto percentual de agregados e escravos, que tendem à diminuição ao final do século XIX, quando essa população de comerciantes enriquecidos já transferia sua moradia do centro da cidade para a Vitória ou para Itapagipe. Com isso, os espaços sofrem transformações do uso original, principalmente nos pavimentos superiores, que passaram a ser ocupados por moradias de menor nível de renda, invasões e depósitos, em um progressivo esvaziamento e deterioro físico. TIPOLOGIAS PREDOMINANTES NA HABITAÇÃO A descrição das casas desses comerciantes abastados indica a existência, no térreo, do empório, onde se empilhavam mercadorias, no segundo andar, dos aposentos da família, no terceiro dos caixeiros, no quarto andar dos escravos e no quinto e sexto, novamente mercadorias estocadas. Estas casas, de 4, 5 e até seis pavimentos, hoje deterioradas, configuravam pequenos impérios burgueses. Ao lado dos casarões, edificações assobradadas e também térreas, onde os pequenos comerciantes viviam ao fundo das lojas.

 

 

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