A&P Arquitetura | Ficha técnica – Concurso para Escola e Centro Comunitário São Paulo em Guiné Bissau

Ficha técnica – Concurso para Escola e Centro Comunitário São Paulo em Guiné Bissau

local comunidade de São Paulo em Guiné-Bissau

projeto 2010

equipe Arq. Alexandre Prisco, Arq. Nivaldo Andrade, André Nóbrega, Joaquim de Oliveira, Lucas Paes, Raquel Neimann, Vinícius Bustani

área da intervenção 1.058,90 m²

Projeto submetido ao Concurso Publico Nacional de Arquitetura – Uma Escola para Guiné-Bissau

 

A comunidade de São Paulo demanda um espaço multiuso, que possa abrigar não só as atividades de educação formal dos alunos do bairro, mas que também possa se constituir, principalmente nos horários em que não estiverem ocorrendo aulas, em um centro comunitário, abrigando atividades de formação e capacitação da mão de obra local, debates e atividades culturais.

A Escola e Centro Comunitário São Paulo se configurará, ademais, em um elemento simbolicamente importante para a comunidade e, por estar situada em um contexto de urbanização incipiente, deve se constituir também em um marco na paisagem, criando uma referência visual e contribuindo na orientação da urbanização do seu entorno. Por outro lado, o projeto deste novo equipamento está fundamentado na identidade da comunidade de São Paulo, nas suas práticas e nos seus modos de vida e adota os materiais da arquitetura vernacular local.

As diversas áreas que compõem a edificação se articulam através de dois grandes espaços descobertos de convivência e de circulação – duas ruas-pátio, transversais entre si. A principal destas ruas-pátio se desenvolve na direção norte-sul e tem em sua extremidade meridional o acesso principal à edificação, embora ela possa ser acessada também pelas extremidades oeste, norte e leste.

Toda a edificação se encontram sobre um terrapleno, elevado 80 cm sobre o terreno existente, formado por terra socada e fôrmas permanentes em tábuas de madeira, para resguardar a construção dos alagamentos constantes nos períodos de chuva . O referido desnível é vencido através de escadas de madeira localizadas nas extremidades da edificação, bem como por meio de uma rampa com 7,4% de inclinação, para acesso de portadores de necessidades especiais.

Todo o projeto parte do módulo básico de 40 cm, definido a partir da dimensão padrão dos blocos de cimento usados cotidianamente pela população local, de modo a facilitar o processo construtivo e minimizar os desperdícios.

As duas ruas-pátio definem a setorização do programa na edificação: a rua-pátio norte-sul separa e, ao mesmo tempo, conecta o bloco dos bongolós a oeste e o bloco das salas de aula a leste; na extremidade norte da edificação, um terceiro bloco transversal aos anteriores e deles separado pela rua-pátio leste-oeste, abriga a sala multiuso/biblioteca, administração/secretaria e os espaços de serviço (cantina, sanitários e abrigo para gerador).

O bloco que abriga os bongolós se distingue dos demais pela existência de uma varanda contínua ao longo de sua fachada oeste, com dois metros de largura, que se constitui em um prolongamento do espaço das oficinas e cujas cobertura e vedação se configuram num sistema de painéis com ripas horizontais de madeira que minimizam a incidência direta do sol sobre e pequenas e estreitas aberturas à guisa de janelas.

Em função do crescimento das demandas e da disponibilidade de recursos materiais e humanos, a Escola e Centro Comunitário São Paulo tem a possibilidade de ser progressivamente ampliada nos sentidos leste e sul, podendo ser agregadas novas salas de aula no bloco leste e novas oficinas no bloco oeste, da mesma forma que a sala multiuso/biblioteca do bloco norte pode ser ampliada ou multiplicada na direção leste.

Os três blocos têm em comum a cobertura em telhas de zinco, com duas águas e calha central para captação e posterior reaproveitamento das águas pluviais. Em cada um dos blocos, esta cobertura é suportada por uma estrutura de delgados pilares e vigas de madeira (dendezeira nativa – Elaeis guineensis), os quais dão unidade ao conjunto e se configuram como elementos construtivos absolutamente independentes dos elementos de vedação e das esquadrias; o amplo e contínuo afastamento criado entre a cobertura e os elementos de vedação e as esquadrias permite a ventilação cruzada e potencializa a iluminação natural difusa em toda a edificação.

O bloco dos bongolós se configura como um grande espaço contínuo e coberto, aberto em todos os lados, com exceção da fachada sul. O bloco das salas de aula é mais fechado, com vedação em alvenaria de tijolos de concreto pré-moldado nas extremidades norte e sul, na divisão entre as três salas de aula e em pequenos trechos das fachadas oeste e leste, nas quais predomina a vedação com esquadrias de madeira. O bloco setentrional, que abriga os demais espaços, é o mais confinado, embora possua diversas esquadrias que permitem a ventilação e iluminação natural. No seu trecho central, um espaço coberto permite que a rua-pátio norte-sul se prolongue para o exterior da edificação.

Os espaços da Escola e Centro Comunitário São Paulo se adéquam tanto às atividades de ensino quanto às demandas sociais, culturais e de lazer da comunidade. Particularmente o bloco dos bongolós e a rua-pátio norte-sul se configuram como espaços flexíveis que, em função das atividades que venham a abrigar, podem ser subdivididos em duas ou três partes através de painéis de tecido com armações de madeira que, quando não estiverem sendo utilizados, são facilmente dobrados e guardados. Esta possibilidade de subdivisão da rua-pátio norte-sul permite que cada um dos seus subespaços possa estar temporariamente associado a uma das salas de aula para a realização, pelos alunos e professores, de atividades ao ar livre. As mesas e os bancos nos intervalos entre as paredes das salas de aula e da biblioteca agregam a esses interstícios a possibilidade de servir tanto à sala de aula convencional, adequada à escala da criança quanto, em associação às diversas disposições dos painéis, como local de permanência e convívio – janelas que comunicam os espaços internos com as ruas – pátio.

Além de se apropriar do espaço utilizando-o e adequando-o às suas demandas reais, a comunidade de São Paulo será convocada a contribuir na configuração final da edificação, através de painéis artísticos que serão convidados a pintar nos principais panos de fachada da edificação. A incorporação dos padrões gráficos multicoloridos que caracterizam o vestuário tradicional da Guiné Bissau será, assim, transplantada para painéis nas fachadas do equipamento que, somada às cores das portas que dão acesso às ruas-pátio, reforça a identificação da comunidade com a edificação e o sentimento de pertencimento, além de agregar formas e cores lúdicas que iluminam e dinamizam a construção.

 

 

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