A&P Arquitetura | Ficha técnica – Casa dos Sete Candeeiros (Auditório)

Ficha técnica – Casa dos Sete Candeeiros (Auditório)

local Rua São Francisco, 32, Centro Histórico de Salvador/BA

projeto 2009

execução 2010-2012

autoria Arq. Nivaldo Andrade (coordenador),

Arq. Cínthia Rosa, Arq. Sergio Alencar

colaborador Marcos Núñez

acústica Arq. Débora Barreto

sonorização Eng. José Dionísio de A. Neto

estrutura Eng. Maurício José Lima Bastos (concreto); Eng. Sandro Fábio César e Arq. João Guedes (escada em madeira)

instalações prediais Eng. César Augusto R. Daltro

área  de intervenção 239,00m²

fotografias André Nóbrega

 

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

A Casa dos Sete Candeeiros, localizada à Rua São Francisco, n. 32, no Centro Histórico de Salvador, é tombada pelo IPHAN desde 14 de junho de 1938, quando foi inscrita no Livro de Tombo de Belas Artes sob o n. 119. Um dos mais importantes e conservados exemplares de casa nobre urbana da Bahia, construído no final do século XVII, foi entregue ao DPHAN (atual IPHAN) em 1945 para que o órgão executasse obras de estabilização e restauração no imóvel, então pertencente à Santa Casa de Misericórdia.

Em 1951, quando as obras de estabilização e restauração já se encontravam em fase de conclusão, o DPHAN adquiriu o imóvel, com o objetivo de nele abrigar a sede do seu 2º Distrito, bem como um Museu Regional sob sua responsabilidade. O edifício manteve essa dupla função até meados da década de 1980, quando o órgão adquiriu o Solar Berquó para abrigar a sua sede na Bahia; desde então e até os dias de hoje, a Casa dos Sete Candeeiros vem abrigando o Laboratório de Restauração de Obras de Arte e de Bens Móveis e Integrados, bem como os setores de arqueologia e museologia da Superintendência Estadual do IPHAN na Bahia. Infelizmente, o Museu Regional do IPHAN, com importante acervo de obras de arte e mobiliário, encontra-se fechado ao público há muitos anos.

Contíguo ao solar do século XVII, na sua extremidade nordeste, encontra-se um terraço na extremidade nordeste do terreno. Este terraço é acessível a partir do pavimento térreo do antigo solar, e corresponde atualmente à laje de cobertura de um sótão de 103 metros quadrados, resultante de uma intervenção de estabilização realizada pelo IPHAN no início dos anos 1960, visando evitar o desabamento do imóvel tombado após o deslizamento desta porção do terreno em 1957.

Através dos documentos existentes nas pastas localizadas na caixa referente à Casa dos Sete Candeeiros do Arquivo do IPHAN/BA ficamos sabendo que a decisão sobre a solução projetual a ser adotada para a área do terraço posterior da Casa dos Sete Candeeiros no início dos anos 1960 envolveu os principais arquitetos atuantes no IPHAN na Bahia e no Rio de Janeiro à época, como Lúcio Costa, Paulo Santos, Renato Soeiro, Diógenes Rebouças e Paulo Ormindo de Azevedo.

Na década de 1980, quando se decidiu pela transferência da sede do IPHAN na Bahia para o Solar Berquó recém adquirido, o Arq. Diógenes Rebouças, então consultor-técnico do órgão, elaborou novos estudos tendo como objetivo a requalificação da Casa dos Sete Candeeiros e a revitalização do museu nela existente. Estes estudos, cujas plantas e cortes encontram-se na Mapoteca da 7ª S.R./IPHAN, resgatavam a idéia apresentada pelo Arq. Paulo Ormindo de Azevedo duas décadas antes de criar um novo volume de dois pavimentos, implantado atrás do imóvel tombado, através do aproveitamento do desnível existente entre a cota da Rua São Francisco, onde a Casa dos Sete Candeeiros está implantada, e a Ladeira da Praça.

 

A PROPOSTA ATUAL

Desde 2008, vem sendo planejada a implantação, na Casa dos Sete Candeeiros, da primeira Casa do Patrimônio de Salvador, incluindo uma série de espaços abertos ao público, permitindo uma interação maior do órgão com a sociedade em geral e funcionando como instrumento de sensibilização patrimonial junto à população soteropolitana. Dentre as instalações abertas ao público externo que esta Casa do Patrimônio deverá abrigar estão o Museu dos Sete Candeeiros, existente há décadas mas atualmente fechado ao público, e um Centro Digital de Cidadania. Visando potencializar ainda mais este novo uso, dentro do plano de ação de 2009, a Superintendência Estadual do IPHAN na Bahia propôs uma ação intitulada “Obras de Ampliação da Casa do Patrimônio na Casa dos Sete Candeeiros”.

O projeto de ampliação da Casa do Patrimônio na Casa dos Sete Candeeiros prevê o resgate da idéia, existente na proposta do Arq. Paulo Ormindo de Azevedo de 1961 e no projeto elaborado por Diógenes Rebouças na década de 1980, de aproveitar o desnível existente entre a Casa dos Sete Candeeiros e a Ladeira da Praça para ampliar a área construída do imóvel. No caso desta nova proposta, a idéia é criar sob o terraço localizado aos fundos do solar seiscentesco um auditório com capacidade para 102 espectadores e todas as instalações necessárias: ar condicionado, equipamentos de áudio e vídeo, saídas de emergência, sanitários masculino, feminino e para deficientes, bem como criar os acessos verticais necessários para sua utilização: uma nova escada que, diferentemente da escada de serviço construída há algumas décadas e atualmente existente, atenda às normas de segurança e ao dimensionamento necessário para um edifício de uso público deste porte, e um elevador que permita garantir o acesso dos portadores de necessidade especiais não só ao auditório como também ao pavimento nobre da Casa dos Sete Candeeiros.

A principal diretriz do projeto de ampliação atual foi não modificar volumetricamente o imóvel em sua configuração atual. Embora a solução encontrada na década de 1960 para a extremidade nordeste do terreno, com os diversos muros de arrimo cegos, não possua qualquer valor histórico ou arquitetônico que justifique a sua preservação, estes foram preservados na medida em que foi possível atender ao programa solicitado sem alterar a volumetria do imóvel, o que certamente representou uma redução nos custos da obra.

Visando instalar o auditório e os espaços a ele anexos na área do porão situado sob a laje do terraço existente, o projeto propõe a ampliação do porão/depósito existente sob a laje do terraço até alcançar a fachada nordeste do imóvel seiscentesco. Como forma de garantir um pé-direito adequado ao auditório e também viabilizar a criação de duas saídas de emergência, em cotas distintas, na fachada voltada para a Rua São Francisco, optou-se pela implantação do acesso principal do auditório e de uma das saídas de emergência na cota -3.05 (considerando a cota ± 0.00 como sendo a da soleira da Casa dos Sete Candeeiros). Através da escavação da extremidade nordeste deste terraço, será possível implantar um auditório escalonado, atingindo, na extremidade inferior da platéia e no palco, a cota -5.15. Nesta cota encontra-se o acesso à segunda saída de emergência – situada na cota -6.24 e à qual se terá acesso após descer mais alguns degraus – e ao reservatório inferior de todo o imóvel – que substituirá os reservatórios instalados no porão sob o terraço em 1996 –, bem como a respectiva casa de bombas.

Visando articular as duas saídas de emergência do auditório, propostas paras as cotas -3.05 e -6.24, e a escadaria existente na Rua São Francisco, será necessário realizar uma modificação em um pequeno trecho desta última. Esta solução demonstrou ser a mais interessante tanto do ponto de vista espacial e arquitetônico, em seus aspectos funcionais e estéticos, quanto do ponto de vista da viabilidade econômica.

O hall de acesso principal ao auditório, na cota -3.05, está localizado sob a extremidade noroeste do terraço e serve também de conexão com o corredor de acesso aos sanitários masculino, feminino e de portadores de necessidades especiais localizados nesta cota e destinados exclusivamente aos usuários do auditório.
Embora o elevador ora proposto se situe no mesmo cômodo em que Rebouças, em seu anteprojeto da década de 1980, previa a instalação de um elevador, entendeu-se que a localização mais adequada no âmbito desta proposta seria no canto correspondente às fachadas externas nordeste e noroeste do monumento arquitetônico, visando garantir uma maior área para a circulação dos usuários nos diversos pavimentos que serão servidos por este elevador e pela nova escada. Esta, por sua vez, será construída totalmente em madeira (estrutura e pisos), com guarda-corpos em aço e corrimãos em madeira.

Para garantir a ventilação e a iluminação dos sanitários masculino, feminino e de portadores de necessidades especiais a serem criados no nível -3.05 para atender aos usuários do auditório, bem como para garantir as saídas de emergência necessárias à segura evacuação dos usuários do auditório em caso de sinistro, foi necessário criar algumas aberturas na fachada noroeste do porão (voltada para a Rua São Francisco). Esta fachada já possui atualmente uma porta metálica de acesso ao porão, cuja localização na fachada foi definida exclusivamente por aspectos funcionais, sem qualquer preocupação estética.

As novas aberturas correspondem às duas saídas de emergência – situadas nas cotas -6.24 e -3.05, o que, como vimos acima, permitem a evacuação do auditório escalonado simultaneamente pela sua extremidade inferior e pela sua extremidade superior – e às quatro pequenas janelas quadradas (0,80 x 0,80 m) que iluminam e ventilam indiretamente os sanitários localizados na cota -3.05, através da circulação de acesso a eles. É preciso ressaltar que a solução arquitetônica proposta para essa fachada, com as novas aberturas, pretende integrar-se de forma harmoniosa com a contígua fachada da Casa dos Sete Candeeiros, deixando clara, contudo, sua contemporaneidade.

Uma vez que as copas e os sanitários atualmente instalados no térreo e no primeiro pavimento da Casa do Sete Candeeiros darão lugar ao elevador e à nova escada propostos, foi necessário realizar uma investigação bastante criteriosa sobre quais espaços do solar seiscentesco poderiam passar a abrigar esses usos. O processo de definição da localização da nova copa e dos novos sanitários foi bastante longo e discutido, e foram realizadas diversas discussões entre a equipe responsável por este projeto arquitetônico e os técnicos da Superintendência Regional do IPHAN na Bahia. Algumas salas foram descartadas logo de início, por se tratarem de espaços caracterizados por revestimentos de grande valor artístico e histórico (como é o caso das salas cujas paredes são parcialmente revestidas com azulejos) ou por se tratarem de espaços nobres, com ventilação e iluminação natural privilegiadas, que permitiriam permanências mais prolongadas.

Finalmente, ficou definido que a nova copa seria instalada no cômodo localizado à esquerda do hall de acesso principal, uma vez que se trata de um espaço com iluminação e ventilação reduzida e que é desaconselhável para usos mais prolongados – há alguns anos, abrigava a representação local da Fundação Cultural Palmares, cujos servidores continuamente reclamavam da umidade e da relativa insalubridade à qual estavam submetidos trabalhando ali durante oito horas diárias. Atualmente, este cômodo é utilizado como depósito, embora possua uma janela voltada para a Rua São Francisco que lhe garante uma razoável luminosidade e alguma aeração.

 

AUDITÓRIO

No que se refere especificamente às soluções adotadas no auditório, uma vez definida a sua implantação e os seus acessos e saídas de emergência, bem como a localização dos espaços a ele anexos, foram feitos estudos para dar ao ambiente interno um acabamento mais nobre, evitando, contudo, propostas de custos exorbitantes.

Para o forro do auditório, foi proposta uma solução com diversos planos, organizados em três faixas longitudinais (paralelas às paredes laterais do auditório), garantindo uma excelente solução acústica e criando um interessante movimento no espaço. A partir da criação destes planos no forro, foi possível criar, a partir do projeto de iluminação, duas ambientações distintas: a iluminação indireta e sutil, para projeções, e a iluminação geral, para momentos em que seja necessário permitir aos usuários fazer leituras e anotações.

Aos fundos do auditório, na cota -3.05 e próximo ao seu acesso principal, foram localizadas a cabine de som e luz e a cabine de tradução simultânea, contíguas uma à outra e com uma excelente visibilidade do palco.

A decisão por manter a parede em alvenaria de pedra existente ao fundo do palco teve como objetivo criar um contraponto sóbrio e rústico ao colorido e relativa sofisticação dos novos materiais adotados no forro, paredes, piso e poltronas do auditório, relembrando os usuários de que se trata de um edifício histórico e de que aquele espaço está localizado em um pavimento semi-enterrado. Esta decisão traz vantagens ainda tanto do ponto de vista acústico, uma vez que a parede de pedra preservada servirá como isolante acústico para o auditório dos ruídos dos automóveis que circulam pela Ladeira da Praça, quanto do ponto de vista econômico, pois elimina os custos decorrentes da sua demolição e da consequente construção de um novo elemento de fechamento.

 

 

 

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